Poema de Diana Pilatti, publicado na Antologia Mulherio, Onças e letras, organizada pelo Mulherio das Letras MS, Ava Editora (2026).
Outono de gelo
Rara a palavra
que como desígnio de existência pode manipular o tempo
e a agonia de habitar-se só no mundo
ledo labirinto finito
eu limítrofe
encara-me o Silêncio
aqui outra vez
um passo precipício
este desejo lúcido de salto
este verbo-navalha a tocar o osso
plurais solitários
a essência aurirósea Ismália espalhada pelas fronteiras da pele
lavro a palavra-memória
nas frestas da arquitetura violenta
uma mudez láurea me coroa
escapo
diluo-me escuridão
um deus ignoto assiste a minha dor
e se compraz em sua masturbação celestial
à imagem e semelhança dos homens
entre os batéis ondulantes sua bestialidade onipotente submerge
a Morte diagrama meu nome num grão de pólen
– Chame-me com sua voz nítida de eternidade!
mas nada diz
uma Moira aprecia atenta tal arte
– Rompe a linha já sem brilho!
mas nada acontece
no espelho
uma mulher escava versos
entre os escombros
choram as estrelas fraturadas
o Ignoto retorna
mastigando o Tempo entre as presas
cospe alguma estrela e meia dúzia de mentiras à humanidade
sua voz troveja
ambientada ao ar rarefeito
infringe sua vontade fálica em meu corpo
– Morte, confidencie-me ao menos um de seus segredos
e anuncie meu nome à sádica plateia presente
resgata-me em seus braços, gentil senhora.
a luz se encerra entre os horizontes de flamas calmas
sonhos esfacelados
o mundo coagula em sua órbita silente
Vênus surge fecundando o céu noturno
e eu ainda estática no beiral do abismo
como um pássaro sem voo e sem canto
a palavra caminha lenta em direção ao Silêncio
descalça
pássaro-lúmen
na nitidez da noite branca
deito sobre suas penas e compreendo minha efemeridade
um rio jubiloso sustenta a saudade vítrea
estilhaços de inocência perdem-se nas águas densas da memória
as horas se alongam
o signo profano troveja novamente pela minha intimidade
suor
hormônios
e sal
mais uma vez contemplo o paraíso maculado
outro verso aerado escapa da minha boca entreaberta
cabelos ao vento
sou exílio violáceo e trago entre as mãos um coração em chamas
e cinzas
rara palavra afetuosa
entre estes abraços alagados
eu e minhas irmãs –
Sim, é preciso renascer.
Diana Pilatti
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